De Osório para os EUA: conheça a gaúcha aprovada em cinco universidades americanas

Victórya Leal desenvolveu o jogo de tabuleiro e aplicativo "Eco-Socius" | Foto: Arquivo pessoal

Aluna de escola pública, Victórya Leal vai estudar na Johns Hopkins, uma das maiores universidades do mundo focada em pesquisa.

Uma jovem cientista da cidade de Osório, no Litoral Norte do RS, vai levar sua paixão por economia circular e ciência de dados para fora do país.

Victórya Leal, de 20 anos, foi aprovada em cinco universidades nos Estados Unidos, onde vai morar a partir de agosto.

Aluna de escola pública durante toda a sua trajetória, ela nunca sonhou em estudar fora do Brasil porque não imaginava que isso seria possível.

Agora, entrou para a Johns Hopkins, uma das maiores universidades do mundo focada em pesquisa.

No Ensino Médio, Victórya gostava de se envolver em projetos de pesquisa científica e atividades extracurriculares.

Durante uma viagem para os EUA, em uma feira de ciências com diversas universidades, ela começou a perceber que poderia ir além. “Foi a primeira vez que eu entendi que poderia pensar também na possibilidade de estudar no exterior, mas não levei muito a sério”, conta.

Quanto concluiu o quarto ano do EM no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFRS), no final de 2022, fez vestibular para universidades brasileiras e também participou de uma seleção na Fundação Estudar.

O programa elege jovens de todo o Brasil para fazer o processo de “application” para universidades estrangeiras.

Contudo, quem é selecionado não pode estar vinculado a universidades brasileiras. Com isso, Victórya precisou tomar uma difícil decisão: estudar na Ufrgs ou na UFSC, onde havia passado no vestibular, ou arriscar entrar no preparatório da Fundação Estudar. “Eu escolhi tentar. E foi por meio desse programa que eu entendi como transformar todas as minhas experiências em um modelo de aplicação para universidades americanas.”

Assim, a estudante gaúcha deu o primeiro passo para uma jornada cheia de barreiras. Victórya relata que o processo de aplicação para as universidades americanas é muito diferente do modelo brasileiro, por isso, o primeiro desafio foi entender como tudo funcionava. “Escrevi mais de 40 redações, fiz teste de proficiência, fiz o SAT, que é o Enem americano. Também tive que colocar todas as atividades extracurriculares que fiz durante o ensino médio e as premiações que eu tinha conseguido até o momento no formato deles”, detalha.

Além de reunir toda a documentação financeira, que foi um desafio também para a família, era necessário conseguir carta de recomendação de professores e diretores, ranking e histórico escolar traduzidos. “Na minha escola, mesmo sendo o Instituto Federal, não tinha essas coisas. Foram vários desafios, principalmente quando dependia de outras pessoas e estruturas que também não estavam acostumadas com aquele modelo.”

Paixão por economia circular
Passados os obstáculos, a gaúcha foi admitida na Johns Hopkins e em outras quatro universidades americanas: Simmons University, University of Rhode Island, Stetson University e University of Kentucky. Agora, vai se dedicar a estudar economia circular, uma paixão descoberta ainda no Ensino Médio.

Ela conta que sua avó mantinha associações femininas e brechós na região do Litoral Norte gaúcho, mas durante a pandemia, Victórya percebeu que ao contrário do que acontecia no mundo todo, os pequenos negócios liderados por mulheres não faziam parte da migração em massa para o e-commerce.

A jovem decidiu usar a ciência para solucionar o problema e mandou mais de dez e-mails para conseguir orientação de uma professora do IFRS. “Depois de muita insistência, ela disse sim e a gente começou a desenvolver o projeto online.” E foi assim, assistindo a vídeo-aulas no YouTube para aprender programação, que Victórya criou o Fidere, um aplicativo e-commerce para conectar brechós e associações femininas.

Ela criou um modelo matemático inédito do comportamento dos jovens brasileiros na economia circular e, a partir disso, desenvolveu o jogo de tabuleiro e aplicativo “Eco-Socius”, voltado à educação para o desenvolvimento sustentável. “Descobri que esses brechós não eram só importantes para minha avó e para as amigas dela, mas envolvia algo muito maior. Foi aí que comecei de fato a me debruçar sobre economia circular.”

Com esse projeto, foi a vencedora da 5ª edição do prêmio “Mude o Mundo como uma Menina”, em dezembro do ano passado, na categoria “Visionária”.

 

Uma inspiração para alunos da rede pública

A nova estudante da Johns Hopkins University destaca a importância da representatividade para alunos de escolas públicas. “Sempre achei que algumas oportunidades não eram para mim, porque eu não via pessoas vindo do mesmo local. Da mesma forma que a minha trajetória já pode ajudar mais pessoas a ingressarem no mundo da ciência, com certeza vai ajudar outros jovens a pensarem que é possível ir além”, afirma.

Entre as pessoas que incentivaram Victórya nessa jornada está sua avó, Celeida Leal. “Foi ela que me ensinou tudo que eu sei sobre comunidade.” Outra pessoa fundamental foi a professora orientadora Flávia Twardowski, pró-reitora de pesquisa do IFRS, que fez com que a jovem acreditasse na possibilidade de estudar no exterior, além dos professores Pedro e Keila, da Fundação Estudar.

Muito em breve, Victórya vai embarcar, sozinha, para o início da realização de seu maior sonho na ciência: estar no centro das discussões sobre economia circular, mas sempre lembrando do país e do contexto de onde saiu. A jovem cientista leva na bagagem o desejo de transformar sua realidade através de iniciativas sustentáveis, mostrando aos alunos da rede pública que eles podem e devem sonhar com a possibilidade de alçar voos mais altos.

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Victórya começa a estudar na Universidade Johns Hopkins em agosto | Foto: Arquivo pessoal

 

Correio do Povo

 

 

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