O ÚLTIMO AZUL, UMA EPIFANIA AMAZÔNICA, CRÍTICA POR DARIO PONTES

O Céu é Azul .. O Mar é Azul ..

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Vista do espaço, a Terra é Azul ..

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Blue, em inglês, é Azul, mas também pode ser Tristeza ..

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O Absinto é Azul ..

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Para receber o mais recente longa de Gabriel Mascaro, o 53° Festival de Cinema de Gramado pintou seu Tapete Vermelho de Azul ..

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No filme, o caramujo da baba azul deixa um rastro azulado quando caminha lentamente. Basta uma gota dessa baba azul em cada olho do espectador, para se ver o que nunca se viu: a tela do cinema transfigurada numa infinita seara de possibilidades azuis.

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Vamos ao argumento ?? O tema aqui é Etarismo. E como lidamos com o Envelhecimento ..

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Em uma cidade industrial amazônica, num futuro distópico não muito distante, acompanhamos a protagonista Tereza, de 77 anos, que ainda consegue trabalhar numa fábrica produzindo carne de jacaré. Dona de uma vida reles e ordinária, e com uma família que está pouco se lixando, ela tenta escapar do “cata-velho“, uma espécie de jaula ambulante que roda pelos bairros periféricos capturando idosos para levá-los a uma colônia habitacional, onde eles devem “desfrutar“, em exílio compulsório, seus últimos anos de vida, pra que a juventude produtiva da nação possa trabalhar sem se preocupar com os mais velhos. O projeto do governo é vendido à sociedade como um benefício para os idosos, cujas famílias passam a receber um auxílio mensal em dinheiro. O que pouco se comenta é que nenhum idoso que vai consegue voltar.

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Tereza é avessa a ideia de perder sua autonomia, mas desconfia que seu tempo de vida útil acabou. Não tem mais querer, e o descanso é forçado. Sem esperança de dias melhores, está entregue à depressão. Busca escapar, mas seus cabelos brancos denunciam sua condição de idosa e ela começa a aceitar seu destino como inevitável. Mas eis que resolve, antes do inexorável fim, realizar um antigo sonho de infância: fazer uma Viagem de Avião. Ela tenta, mas não consegue a passagem aérea. E quem não tem avião, voa de barco. Ela então embarca numa longa jornada fluvial de “fuga” e transmutação pelos rios e afluentes da Amazônia, que irá mudar a sua vida, e também as nossas.

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Não há como ficar igual depois de uma sessão de ‘O Último Azul‘. É dessas vivências que transformam nosso olhar e nossa forma de pensar o mundo. Saí da sala me sentindo teletransportado para um estado de transe mágico que chamei de Grande Epifania Azul ..

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O roteiro de Mascaro e Tibério Azul tem uma tessitura precisa, e acerta em cheio ao seguir a premissa clássica de construir o arco dramático da protagonista, a jornada do herói.

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Numa sociedade arcaica como a nossa, o corpo idoso só está seguro quando fica domesticado em casa ou numa instituição. O roteiro cumpre a tarefa de desconectar esse corpo de um lugar utópico, e inseri-lo na distopia, autorizando-o a lançar-se numa jornada, a ganhar o mundo, a sonhar, e desejar ..

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Teresa parte de um lugar de extremo desamparo, e vai passo-a-passo redescobrindo sua força, refazendo suas escolhas, tomando pra si as rédeas de seu destino. Desvenda as possibilidades de transformação e encontra os pontos de virada, até alcançar a Certeza de sua Sorte, o Poder de sua Determinação, e a grande Aventura de sua Existência. É a partir da trágica miséria de sua velhice que ela pode se transmutar no clímax de sua glória, e descobrir que envelhecer é viver ainda mais intensamente. Que enquanto há curiosidade, há vida. Que existe emoção, coragem, desejo, dignidade e beleza no barco da Melhor Idade.

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E esse barco navega azuladamente, capitaneado por um Diretor que não apenas sabe o que faz, mas segue ávido aprendendo mais e mais. Seus filmes sempre me impactaram muito. Obras como Doméstica, Divino Amor, Boi Neon e Ventos de Agosto, revolucionaram minha capacidade sensorial de experienciar um filme. Em ‘O Último Azul‘ ele consegue sem dificuldade mesclar gêneros cinematográficos e usar sem medo referências híbridas da Ficção Futurista, do Road-Movie, do Coming-of Age, da Comédia Fantástica ..

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Gabriel Mascaro é cinema pernambucano raiz, entende que a sétima arte não se faz sozinho, e sabe se unir às pessoas certas, àquelas com quem tem afinidade Estética e Conceitual. Com talento, generosidade e muita disciplina artística, ele nos presenteia com um cinema Engajado, sem ser Panfletário. É tarefa para poucos, e privilegiados.

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A Fotografia exuberante é a pele e a roupa desse filme. Guillermo Garza entrega uma carpintaria artesanal rica em composições imagéticas que seguem ecoando em minha memória visual. Há uma rinha de dois peixes beta num aquário azul que é simplesmente espetacular. Nem adianta falar. Só vendo ..

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A Direção de Arte e os Figurinos arrebentam a boca do balão. Assinam Deyse Barreto e Gabriella Marra.

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O que dizer do elenco, meu Deus ..

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Denise Weinberg está esplêndida, e acompanha com precisão cirúrgica o complexo arco dramatúrgico da protagonista Teresa. Não à-toa, ela ganhou o prêmio de Melhor Interpretação no prestigiado Festival de Guadalajara. Considero este o melhor trabalho de sua carreira, que já era irretocável no cinema brasileiro.

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Rodrigo Santoro também está melhor que nunca aos 50 anos de idade e 25 de jornada. Não coincidentemente, recebeu – na mesma noite da première do filme – o Troféu ‘Kikito de Cristal’, honraria concedida pelo Festival de Gramado a artistas que elevam nosso cinema ao nível do reconhecimento internacional.

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Também quero destacar a atuação certeira de Adanilo, que desponta na cena nacional esbanjando talento e vigor amazonense, dizendo a que veio e pedindo pra ficar. Eu já conhecia e gostava do trabalho dele em ‘Oeste Outra Vez‘. Agora apaixonei.

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Mas pra mim, a melhor e grande surpresa foi ser apresentado ao trabalho dessa veterana do Cinema Cubano chamada Miriam Socarrás. Uma performance arrasadora, com um equilíbrio tão sutil entre leveza e densidade só encontrável na atuação de Atrizes que atingiram aquele estágio de excelência a que chamamos de Divas. Obrigado ao filme por mais esse presente azul.

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A banda sonora e musical pulsa como sangue (azul) no coração do filme. Sons onipresentes, ruídos abissais, músicas de eloquência visceral .. Quem assina é Liliana Villaseñor (som), Maria Alejandra Rojas & Arturo Salazar (desenho sonoro), e Memo Guerra (música original). A excelente edição e montagem é assinada por Omar Guzmán e Sebastián Sepúlveda.

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Imagino que não seja fácil, nem barato, manter uma equipe desse porte filmando por várias semanas em barcos no Amazonas. As locações aconteceram na capital Manaus e nos municípios de Manacapuru e Novo Airão. Apesar de não ser um filme de Grande Orçamento, a produção é caprichada em todos os aspectos. Mérito da Rachel Daisy Ellis, do Sandino Saravia Vinay, e da galera das Produtoras Desvia Filmes (Brasil) e Cinevinay (México). Globo Filmes (BR), Quijote Films (Chile) e Viking Films (Países Baixos) assumem a Co-produção.

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‘O Último Azul‘ (The Blue Trail) merecidamente levou o Urso de Prata no 75° Festival de Berlim deste ano. É o segundo maior prêmio da Berlinale (Grande Prêmio do Júri). Distribuído no Brasil pela Vitrine Filmes, ele segue numa tour de pré-estreias em capitais brasileiras e tem lançamento oficial nas salas de cinema do país em 28 de agosto. Por favor, não deixem de ver na Telona.

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Há tempos eu não me sentia tão genuinamente envolvido por um filme. Desejo vida longa e azulada a esta obra, a este realizador e a todos os envolvidos.

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Parabéns Pessoal !!

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Salve o Cinema Pernambucano. Salve o Cinema Autoral Brasileiro ..

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A Vida Presta !!

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(do Festival de Gramado, em Agosto de 2025, para a Rede Sina)

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Dario Pontes

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E do amor gritou-se o escândalo

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Do medo criou-se o trágico

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No rosto pintou-se o pálido

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E não rolou uma lágrima

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Nem uma lástima

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Pra socorrer ..

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E na gente deu o hábito

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De caminhar pelas trevas

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De murmurar entre as pregas

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De tirar leite das pedras

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De ver o tempo correr ..

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Mas, sob o sono dos séculos

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Amanheceu o espetáculo

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Como uma chuva de pétalas

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Como se o céu vendo as penas

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Morresse de pena

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E chovesse o perdão ..

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E a prudência dos sábios

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Nem ousou conter nos lábios

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O sorriso e a paixão ..

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Pois transbordando de flores

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A calma dos lagos zangou-se

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A rosa-dos-ventos danou-se

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O leito dos rios fartou-se

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E inundou de água doce

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A amargura do mar ..

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Numa enchente amazônica

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Numa explosão atlântica

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E a multidão vendo em pânico

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E a multidão vendo atônita

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Ainda que tarde

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O seu despertar ..

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(Chico Buarque, Rosa dos Ventos, 1970 – da trilha musical de ‘O Último Azul’)

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