Em clima de Natal, crianças exercitam a solidariedade e a empatia em atividades escolares
Com o exercício de escrever cartas, crianças trocam os brinquedos por valores e iniciativas para ajudar o próximo.Porthus Junior / Agencia RBS
A menos de um mês para o Natal, as tradicionais cartas ao Papai Noel se tornam mais frequentes entre as crianças, que escrevem seus desejos de presentes para a data. É comum ver cartinhas pedindo uma nova bicicleta, uma boneca ou até videogame, mas diante de um ano com tragédias em função das chuvas e depois de reflexões promovidas em sala de aula, estudantes de duas escolas de Caxias do Sul tiveram uma atitude diferente.
Quem pensa que as crianças não conseguem compreender a complexidade das realidades diante de fatos conflitantes, como mazelas sociais, que resultam em diversas formas de escassez, algumas até amplificadas pelas tragédias ambientais, vai se surpreender com o teor das cartinhas endereçadas ao bom velhinho. E isso tudo fica ainda mais pulsante no final do ano, época em que o espírito do Natal está em evidência.
Uma das cartinhas, escrita por um dos alunos da professora Daniela Maciel, da Escola Edificare, de Caxias do Sul, resume bem a visão de mundo das crianças: "Neste Natal, eu não vou pedir nada de presente. O meu presente meus pais já vão me dar, então eu vou desejar casa para quem está sem casa", escreveu Ricardo, 8 anos. Uma lição de vida, não?
Exercício de empatia para quem mais precisaA partir da leitura de um conto de Natal a professora Daniela Maciel se surpreendeu com a sensibilidade das crianças.
— Eu pedi para eles escreverem a famosa carta ao Papai Noel e, depois, li um conto chamado Cartas Ao Noel, que conta a história de um menino pedindo um presente para o Papai Noel, só que ele não estava pedindo nada para ele. As crianças se emocionaram com a carta. E eu disse: "vamos escrever nós uma carta para o Papai Noel pedindo para outras crianças e não para nós" — explica a professora.
A partir da provocação da professora, os alunos escreveram suas cartinhas com os desejos ao Papai Noel. Inspirados pelas notícias vistas na televisão e em jornais, como as enchentes no Rio Grande do Sul, os alunos expressaram seus desejos de um mundo melhor para todos.
— Eles estão aprendendo como se escreve uma carta, com data, dando oi para o Papai Noel, perguntando como ele estava. E saíram várias coisas muito lindas! — conta Daniela.
Entre os desejos, além de ajudar outras crianças, os pequenos desejaram casa e abrigo para pessoas e para animaizinhos de rua e prosperidade para os atingidos pelas enchentes.
— São 16 crianças nessa turma e saíram 16 relatos muito bonitos, que emocionam — orgulha-se a professora.
Cartas que fazem parte da atividade pedagógica desenvolvida pela professora Daniela MacielDaniela Maciel / Divulgação
Cartas que fazem parte da atividade pedagógica desenvolvida pela professora Daniela MacielDaniela Maciel / Divulgação
Cartas que fazem parte da atividade pedagógica desenvolvida pela professora Daniela MacielDaniela Maciel / Divulgação
Cartas que fazem parte da atividade pedagógica desenvolvida pela professora Daniela MacielDaniela Maciel / Divulgação
No Colégio São José, em Caxias do Sul, por exemplo, todas as turmas da Educação Infantil (dos dois aos cinco anos), tiveram o desafio de criar uma ação concreta que refletisse os desejos da turma para a sociedade. De acordo com a coordenadora Natália Catafesta, o projeto intitulado Cartas para o Menino tem como premissa que os alunos enviassem cartas ao menino Jesus, contando o que estão fazendo para tornar o mundo melhor.
— Cada turma tem sua ação. Uma das turmas, por exemplo, fez a ação de trocar telas por livros e a ação concreta deles foi convidar os alunos da creche São José (projeto social mantido pela escola) para uma visita. Eles vieram participar de uma contação de histórias e, depois, brincaram na biblioteca — conta a coordenadora.
Entre as ações desenvolvidas pelos pequenos, estão a conscientização sobre o desperdício de alimentos e a doação para o Banco de Alimentos; o cuidado com os animais e, como ação concreta, a doação de ração e sachês para a Organização Não-Governamental (ONG) Sem Raça Definida, de Caxias; o cuidado com a água e a divulgação do projeto Praia Limpa entre alunos, pais e famílias; e a gentileza no trânsito, com a confecção e distribuição de adesivos de carro para os pais com dizeres elaborados pelas crianças, pedindo por mais gentileza.
— O projeto tem o intuito de trazer o lúdico e a brincadeira para abordar os valores que foram os temas principais que desenvolvemos com as turmas durante o ano. As crianças se envolveram muito porque nós trouxemos a temática das cartas, que trouxe muita curiosidade — explica a professora Cláudia Bedin, da turma de Pré 1.
Os temas discutidos durante o ano envolveram também a aceitação das diferenças entre os colegas, como explica a professora:
— Foi um tema que a gente trabalhou durante todo o ano, não foi nada que surgiu agora, como novidade para as crianças. Eles foram trazendo, no cotidiano deles, quais eram os pontos que eles foram percebendo, até na questão das brincadeiras, no dia a dia, e não só as diferenças como meio físico, mas o jeito de ser, de brincar e interagir. O projeto só veio a somar nas ações do ano todo — justifica Cláudia.
Livros fizeram a alegria da criançada.Porthus Junior / Agencia RBS
Os pequenos aproveitaram a visita para curtir a biblioteca.Porthus Junior / Agencia RBS
Pequenos adoraram a visita. Porthus Junior / Agencia RBS
"O que o menino Jesus quer de presente?"
A turma do Maternal 2, da professora Edilhane Borba, teve a tarefa de refletir sobre a união, exercitando o compartilhar de brinquedos e iniciativas.
— Se perguntar, hoje, para eles "o que que o menino Jesus quer de presente?" eles vão dizer que "ele quer que a gente brinque junto". Eles mesmos trazem conceitos diferentes, que eles imaginam e, principalmente, do que eles vivenciaram ao longo do ano — explica a professora.
Mesmo com a pouca idade, a ideia de desenvolver atividades sobre os valores da escola cativou a gurizada, e comoveu os educadores e a comunidade escolar. As professoras contam que até os alunos do Ensino Médio e Fundamental, além dos pais, engajaram-se com a causa.
— Nós quisemos trazer esses temas com uma responsabilidade para as turmas, para desenvolver uma questão mais social entre as crianças, por isso nós temos, também, as ações que não envolvem só a turma em si, mas toda a comunidade. Eles já sabem qual é a ação da outra turma, já se envolvem com a ação das outras turmas para, realmente, envolver a família toda — orgulha-se Edilhane.
gauchazh.clicrbs.com.br
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